quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

UMA ESCOLHA, UM PRAZER RARO

Um mero torpedo foi a chave, ou melhor, a mola propulsora de um encontro sem precedentes. Já deviam ser um pouco mais das 10horas quando o meu companheiro da jornada da vida, “O patriota”, tomou a iniciativa e enviou-me uma SMS: “Shirangano, que tal reunirmos a malta no lugar de sempre para um incruento duelo intelectual? Assim podemos discutir as nossas escolhas e aproveitamos para matar as saudades”.


O repto estava lançado, contudo, não me fiz de rogado, aceitei o desafio, uma vez que se tratava de uma oportunidade ímpar para reencontrar alguns colegas da faculdade mais próximos e não só, que, por força das vicissitudes da vida, a nossa comunhão mergulhou nos deleites dos costumes da dissolução. Uns, pela primeira vez, entravam com peculiar avidez no mercado de trabalho, alguns ocupados com o estágio curricular, outros empenhados no trabalho final do curso e um número considerável submersos na rotina e nas formalidades estonteantes dum emprego.

“Mano, estou na bicha aguardando pela minha vez de votar. Venha até à assembleia de voto que está no interior da...X, mesmo em frente do prédio onde moro”, disse eu esperando, pacientemente, pelo momento de tomada de posição. A despeito de não me ter deixado embevecer de amores por qualquer partido político, tinha que fazer uma escolha, ou seja, tomar uma decisão. Não devia ser uma decisão rotineira e automática embutida de exageros e cegueira partidária, porém, uma decisão sapiente, patriótica e prudente como as são todas as decisões humanas. Com efeito, de forma consciente, cumpri o meu dever cívico.

Instantes depois, expelindo alegria, entusiasmo contagiante, um sorriso fulgurante, desses retratados em contos encantados, e o dedo indicador visivelmente marcado, chegava “O patriota” com aquela segurança e audácia de quem acabara de cometer um acto heróico. “Parábens por teres excercido o seu direito”, felicitamo-nos mutuamente com a sinceridade própria de mentes elevadas sem, no entanto, nos preocuparmos com a escolha do outro. “Vamos chamar o pessoal!”

O primeiro passo começou por ser dado pelo telefone. Um contacto para aqui, outro para acolá e o encontro estava quase de pé, pois, faltava um dos manos confirmar a sua presença.
- Como é mano? Onde é que estás?
- Estou em casa, mamen!
- A malta toda vai estar no X, apareça. Já votaste?
-Não, estou farto dessa patranha eleitoral que só beneficia a alguns. Quero mas é aproveitar o dia para me devotar ao meu trabalho de defesa – disse o meu mano.
- O que é isso, mano!!? Isso é cobardia. Imagina quantos compatriotas do Kadhafi gostariam de estar no seu lugar. A pátria te chama, entretanto, deixa-te de asneiras, vai votar e depois venha aqui ombrear com os outros varões insignes.
O meu mano não tardou, porém, a mudar de juízo a respeito da importância do seu voto. “No espaço de uma hora estarei aí, meus manos!”, garantiu-nos.

Volvidas algumas horas, estávamos todos reunidos e a tinta indelével no dedo era a prova cabal de exercício da cidadania. Éramos 15 ínclitos individuos que, sem dúvida, muito lustre darão à História pátria nos distintos ramos de actividade a que, com devoção, se dedicam. Não obstante serem as quartas eleições, por causa da idade apenas existiam dois grupos: os que votaram pela primeira vez numas presidenciais e legislativas e os que fizeram pela segunda.

Estavamos todos ali. Havia, no mínimo, um membro fervoroso de cada um dos três partidos mais visíveis do processo eleitoral, nomeadamente o MDM que liderava a lista com nove crentes (quatro novos convertidos), a Frelimo com três fiéis, a Renamo com apenas um devoto, e os restantes dois cidadãos eram apartidários, contudo, não abdicaram de exercer o seu direito de voto. Apesar das nossas simpatias, apatias, antipatias, amores, apetites, repugnância, animosidade partidária, pairava sobre nós um espirito verdadeiramente patriótico e democrático.

- Mamens, cada um contribue segundo as suas “forças”. Hoje estou “nervoso”, não me importo em ficar com a metade da conta contanto que não bebam até à náusea, pois não estamos nas olimpiadas de álcool. - Disse “O patriota”, com humor de sempre.
- Acertaste um jackpot?
- Digamos que sim!

Soltamos sonoras gargalhadas.
Estava tudo pronto para vançar com uma salutar discussão em torno do pleito eleitoral. Começamos por eleger o Comentador com “C” maiúsculo, A.Muchanga levou a melhor posição a frente de V. Mondlane e os outros foram considerados “sardinhas enlatadas mentalmente” e até I.Mussá, a quem nutro uma simpatia, digamos desmedida, não escapou.

Por alguma razão, se calhar a quantidade dos “sacerdotes”, os assuntos relativos ao MDM e ao Daviz dominaram a discussão. Os meus manos “emidemistas” chegaram ao ponto de afirmar que se o Daviz tivesse nascido no Sul do país, provavelmente, outra teria sido a sua aceitação nacional. Comentário que deixou irritado um dos meus manos “frelimistas” que, por seu turno, rebateu com argumentos lúcidos; refrescou a memória dos presentes de que Guebas nasceu no Norte e que a maior parte dos votos vêm do Norte e Centro. Secundado por seus dois camaradas, vincou que o seu voto não teve bases tribalista, mas por convicção e pediu um motivo que o levasse a não votar na Frelimo, para além daquela velha opinião formada de que é um partido de corruptos e está há muito tempo no poder. E os manos “emidemistas” ateram-se a falar na necessidade de mudança sem, no entanto, chegarem a convencê-lo. O meu mano “renamista”, por sua vez, disse que sentiria remorsos se, porventura, não votassem em quem votou.

Os meus manos da frel – claro! - não deixaram de me interpelar. Provocadoramente, insinuaram que, quando me dirigia a Frelimo, usava material bélico altamente sofisticado, incluíndo armas nucleares. Quando se tratava da Renamo utiliza uma arma do tipo AKM obseleta, mas quando o assunto era MDM, me munia de uma pistola de brinquedo.
Prontamente, respondi que tudo tinha a ver com a proeminência, dimensão, responsabilidade do partido e não necessariamente simpatia ou rancor – resposta pouco convencente!

As horas corriam ao ritmo excitante da conversa. Os variados líquidos, mas com a mesma base – o álcool –, fossilizavam-se nos copos. Discutimos o comportamento de alguns órgãos de informação, falamos da CNE, elogiamos a poderosa máquina propagandística da Frelimo, exaltamos alguns analista políticos e rimo-nos de outros, e vaticinamos o futuro do MDM (para uns, será deprimente e, para a maioria, será repleto de glórias).
- Apetites partidários à parte; apesar da frustrações que isso possa vir a criar, 2ª volta seria maningue interessante – provocou “O patriota” sem, no entanto, reunir consenso, visto que os meus manos não têm dúvida sobre quem será o novo inclino da Ponta-Vermelha.

A noite levantava-se timidamente, saudava-nos com uma brisa fresca e suave. E nós não nos espantavamos com o rumo costumeiro do tempo, pelo contrário, devotavamo-nos à conversa e ao álcool. Indistintamente, elogiamos, criticamos, desejamos o bem aos partidos. Apercebemo-nos que a vida é maravilhosa quando entendemos que, mesmo em diferentes frentes, almejamos o bem-estar da pátria amada.
- Não importa quem vencerá as eleições, será o presidente de todos nós. Contanto, que vença de forma honesta.

Rimos a bom rir. Brindamos às nossas escolhas.
Quando demos por nós, a noite estava há biliões de anos-luz a contemplar as nossas façanhas e, exagerando na sua bondade, fez com que pudessemos ver a escuridão. E ainda, de contra-peso, alertava-nos a olhar para o relógio.
- Mamens, amanhã é dia de trabalho!

Assim foi o dia.

8 comentários:

Anónimo disse...

sSinceramente, não percebi nada.podes me explicar o que pretendes transmitir nesse texto. Pensei que irias falar em quem votaste.

Shirangano disse...

Ora essa!
Olha anónimo, porventura sou culpado pela sua preguiça mental? O que eu tenho a ver com a sua má percepção congénita?
No que tange à tua ignorância em perceber o que está escrito, estás perdoado, pois entendo que, como tantos outros moçambicanos, és vítima do nosso ensino de educação. Entretanto, estou muito solidário contigo porque, de alguma forma, me revejo em ti.
Já agora, fizeste o ensino secundário numa instituição pública ou privada?
Um abraço caloroso.

Reflectindo disse...

Gostei bastante do que fizeram:

1. Terem votado e com cabeça

2. Convencerem ao mano que queria desistir ao seu direito. Uma lição, vamos começar agora convencer a tantos para as eleições de 2014

3. O vosso encontro de revisão com simpatizantes e membros de diferente partidos. É esse futuro de que esperamos em Mocambique.

P.S. Mouzinho de Albuquerque escreveu um artigo muito interessante, Shir.

Abraco

Shirangano disse...

Reflectindo,
Na verdade, foi um dia sem igual de confraternização e muito produtivo. Discutimos certos assuntos com muita profundidade. Aqui, neste texto, apenas trago uma infame parte do que realmente aconteceu.

PS: Por acaso tive a oportunidade de ler o artigo de Mouzinho de Albuquerque e achei também bastante interessante. Realmente é esse Moçambique que nos desejamos, sonhamos e, sem dúvidas, não tardará a se materializar.
Um abraço!

JOSÉ disse...

Shir, este teu texto deixa-me consolado e com esperança em relação ao futuro.

"Indistintamente, elogiamos, criticamos, desejamos o bem aos partidos. Apercebemo-nos que a vida é maravilhosa quando entendemos que, mesmo em diferentes frentes, almejamos o bem-estar da pátria amada."

Estamos juntos nesta realidade!

Um grande abraço para repartires com os outros patriotas.

O patriota disse...

Viva grande Shir
Defacto foi uma quarta-feira diferente. Foi um, prazer estar com aquela malta, apos ter exercicido o direito de escolha por sinal um dos mais nobres no exercicio da cidadania. E para tras ficaram as eleicoes. Ate 2014 se Deus quiser.
VIVA.

Shirangano disse...

Caro Jose,
Eh bom saber que estamos juntos nesta realidade.

Certamente, que os outros patriotas ja receberam a sua quota parte do abraco.
Um abraco para ti, tambem.

Shirangano disse...

Viva "O Patriota"
Ate 2014, quem sabe, mais maduros!

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