Pode parecer que estou a caricaturar, mas não estou, aliás, como é natural, a realidade impõe-se e por mim, limito-me apenas a dar-lhe visibilidade.
As imagens sobre a campanha eleitoral trazidas pelas nossas televisões especializadas em maltratarem, alienarem e desorientarem a população analfabeta, rotineira e sem o mínimo de consciência crítica, mostram-nos, uma vez a outra, até ao enjoo, um comportamento de ostentação pornográfica perpetrada pelos partidos políticos.
Isto significa dizer que, quando se deles esperava moderação e, de alguma maneira, contenção, os partidos políticos legitimam o mais hipócrita de todos os princípios de que em Moçambique o momento de caça ao voto, esbanjamento, ostentação e o exagero são as palavras de ordem.
Escandalizem-se ou pasmem-se, mas é hipocrisia ignorar, ou pior, escamotear esta realidade obscena: são cerca de 50 milhões de meticais que se vão gastar numa campanha eleitoral infecunda e inútil à custa dos nossos impostos enquanto milhares de moçambicanos vivem numa desgrenhada miséria doméstica, em condições de tamanha desumanidade e enfrentam os duros, violentos e insuportáveis combates de que é feita a vida vivida à intempérie.
Aliás, o povo moçambicano, na sua maioria cientificamente empobrecido e concebido para viver de cinto apertado por políticas sem misercórdia, vive expressões mais crueis de falta de alimento, dificuldade no acesso à educação e à saúde; razões mais do que suficientes para fazer corar de vergonha os políticos que inescrupulosamente fazem promessas que, à partida, sabem bem que nunca cumprirão.
Para além de overdoses de discursos vazios, causa-me igualmente agonia assistir aos políticos a chamarem literalmente de burros aos eleitores que têm a infelicidade de lhes ouvir. Fazem pouco das pessoas, o simples facto de não saberem ler e nem escrever não significa que são incapazes de reconhecer o seu partido e respectivo candidato.
É deveras repugnante e simultaneamente revoltante ver o que fazem os partidos com o dinheiro do erário público. Muito dinheiro que deveria ser poupado é vergonhosamente utilizado para protagonizar imensos circos deprimentes e é gasto em caravanas pejadas de seres humanos aflitivamente tristes, alienados e preparados para prestar vassalagem, cantar hossanas e satisfazer caprichos oportunistas de políticos profissionais consagrados na Corrupção Organizada.
Para além da quantia astronómica que vai intencionalmente e sem esclarecimento pousar nas contas bancárias individuais de algumas pessoas, o resto do dinheiro é gasto em panfletos, outdoors, cartazes, sacos pláticos, camisetes, capulanas, comícios estúpidos e estupidificantes, espectáculos terroristas, músicos descartáveis e até rebuçados para narcotizar a população.
O que ainda me causa impressão é o facto de o Estado permitir que certos partidos usem e abusem dos bens públicos e gastem em propagada quase setenta vezes cem mais do que outros, e algumas formações políticas nem sequer chegam agastar a metade do dinheiro que receberam para o efeito.
Obviamente, cada partido deve fazer propaganda eleitoral consoante as suas possibilidades e apoios de empresários, entretanto, desde que sejam auditados e controlados, mas infelizmente não é isso que se verifica porque os moçambicanos preferem permanecer estúpidos e tão ignorantes quanto devotos até ao fim das suas vidas.
Diante deste esbanjamento, deve-se ficar de olhos bem abertos e, no fim da campanha eleitoral, pedir as contas do que realmente cada partido gastou em toda aquela patranha eleitoral para que cada cidadão vote tomando em consideração também este aspecto.
PS1: Embora tenha havido desigualdade na distribuição dos milhões de euros aos partidos políticos, a campanha eleitoral portuguesa foi bastante bonita. Talvez por tratar-se de um país civilizado e por gozar de uma democracia funcional. Na verdade, o que me chamou à atenção foi ver os líderes dos partidos da oposição a merecerem respeito e atenção dos funcionários nas visitas que efectuaram as instituiçoes do Estado e privadas. Algo que cá entre nós é impensável ou inimaginável, uma vez que, por um lado, o partido é o Estado e vice-versa. E, por outro, os funcionários e até as FADM foram amedrontados com o falso argumento de que os seus boletins estarão devidamente marcados o que permitirá, na hora da contagem, descobrir em quem eles efectivamente votaram.
PS2: O que acho das eleições em Moçambique já escrevi algo aqui.
PS3: Mais um blogue contundente acaba de nascer, confira aqui
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3 comentários:
Otima reflexão. É possivel um Moçambique melhor !
Shirangano,
É possível corrigires o titulo do teu post? A palavra "Campanhia" não devia ter a letra "i" para que fosse "Campanha", que, acredito, é o que querias escrever.
Gostei do post na sua generalidade
Um abraço
Muito obrigado,meu caro Nero. Realmente eh o que ia a escrever.
Caro Vozdarevolucao,
assim seja.
Abracos!
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