Um mero torpedo foi a chave, ou melhor, a mola propulsora de um encontro sem precedentes. Já deviam ser um pouco mais das 10horas quando o meu companheiro da jornada da vida, “O patriota”, tomou a iniciativa e enviou-me uma SMS: “Shirangano, que tal reunirmos a malta no lugar de sempre para um incruento duelo intelectual? Assim podemos discutir as nossas escolhas e aproveitamos para matar as saudades”.
O repto estava lançado, contudo, não me fiz de rogado, aceitei o desafio, uma vez que se tratava de uma oportunidade ímpar para reencontrar alguns colegas da faculdade mais próximos e não só, que, por força das vicissitudes da vida, a nossa comunhão mergulhou nos deleites dos costumes da dissolução. Uns, pela primeira vez, entravam com peculiar avidez no mercado de trabalho, alguns ocupados com o estágio curricular, outros empenhados no trabalho final do curso e um número considerável submersos na rotina e nas formalidades estonteantes dum emprego.
“Mano, estou na bicha aguardando pela minha vez de votar. Venha até à assembleia de voto que está no interior da...X, mesmo em frente do prédio onde moro”, disse eu esperando, pacientemente, pelo momento de tomada de posição. A despeito de não me ter deixado embevecer de amores por qualquer partido político, tinha que fazer uma escolha, ou seja, tomar uma decisão. Não devia ser uma decisão rotineira e automática embutida de exageros e cegueira partidária, porém, uma decisão sapiente, patriótica e prudente como as são todas as decisões humanas. Com efeito, de forma consciente, cumpri o meu dever cívico.
Instantes depois, expelindo alegria, entusiasmo contagiante, um sorriso fulgurante, desses retratados em contos encantados, e o dedo indicador visivelmente marcado, chegava “O patriota” com aquela segurança e audácia de quem acabara de cometer um acto heróico. “Parábens por teres excercido o seu direito”, felicitamo-nos mutuamente com a sinceridade própria de mentes elevadas sem, no entanto, nos preocuparmos com a escolha do outro. “Vamos chamar o pessoal!”
O primeiro passo começou por ser dado pelo telefone. Um contacto para aqui, outro para acolá e o encontro estava quase de pé, pois, faltava um dos manos confirmar a sua presença.
- Como é mano? Onde é que estás?
- Estou em casa, mamen!
- A malta toda vai estar no X, apareça. Já votaste?
-Não, estou farto dessa patranha eleitoral que só beneficia a alguns. Quero mas é aproveitar o dia para me devotar ao meu trabalho de defesa – disse o meu mano.
- O que é isso, mano!!? Isso é cobardia. Imagina quantos compatriotas do Kadhafi gostariam de estar no seu lugar. A pátria te chama, entretanto, deixa-te de asneiras, vai votar e depois venha aqui ombrear com os outros varões insignes.
O meu mano não tardou, porém, a mudar de juízo a respeito da importância do seu voto. “No espaço de uma hora estarei aí, meus manos!”, garantiu-nos.
Volvidas algumas horas, estávamos todos reunidos e a tinta indelével no dedo era a prova cabal de exercício da cidadania. Éramos 15 ínclitos individuos que, sem dúvida, muito lustre darão à História pátria nos distintos ramos de actividade a que, com devoção, se dedicam. Não obstante serem as quartas eleições, por causa da idade apenas existiam dois grupos: os que votaram pela primeira vez numas presidenciais e legislativas e os que fizeram pela segunda.
Estavamos todos ali. Havia, no mínimo, um membro fervoroso de cada um dos três partidos mais visíveis do processo eleitoral, nomeadamente o MDM que liderava a lista com nove crentes (quatro novos convertidos), a Frelimo com três fiéis, a Renamo com apenas um devoto, e os restantes dois cidadãos eram apartidários, contudo, não abdicaram de exercer o seu direito de voto. Apesar das nossas simpatias, apatias, antipatias, amores, apetites, repugnância, animosidade partidária, pairava sobre nós um espirito verdadeiramente patriótico e democrático.
- Mamens, cada um contribue segundo as suas “forças”. Hoje estou “nervoso”, não me importo em ficar com a metade da conta contanto que não bebam até à náusea, pois não estamos nas olimpiadas de álcool. - Disse “O patriota”, com humor de sempre.
- Acertaste um jackpot?
- Digamos que sim!
Soltamos sonoras gargalhadas.
Estava tudo pronto para vançar com uma salutar discussão em torno do pleito eleitoral. Começamos por eleger o Comentador com “C” maiúsculo, A.Muchanga levou a melhor posição a frente de V. Mondlane e os outros foram considerados “sardinhas enlatadas mentalmente” e até I.Mussá, a quem nutro uma simpatia, digamos desmedida, não escapou.
Por alguma razão, se calhar a quantidade dos “sacerdotes”, os assuntos relativos ao MDM e ao Daviz dominaram a discussão. Os meus manos “emidemistas” chegaram ao ponto de afirmar que se o Daviz tivesse nascido no Sul do país, provavelmente, outra teria sido a sua aceitação nacional. Comentário que deixou irritado um dos meus manos “frelimistas” que, por seu turno, rebateu com argumentos lúcidos; refrescou a memória dos presentes de que Guebas nasceu no Norte e que a maior parte dos votos vêm do Norte e Centro. Secundado por seus dois camaradas, vincou que o seu voto não teve bases tribalista, mas por convicção e pediu um motivo que o levasse a não votar na Frelimo, para além daquela velha opinião formada de que é um partido de corruptos e está há muito tempo no poder. E os manos “emidemistas” ateram-se a falar na necessidade de mudança sem, no entanto, chegarem a convencê-lo. O meu mano “renamista”, por sua vez, disse que sentiria remorsos se, porventura, não votassem em quem votou.
Os meus manos da frel – claro! - não deixaram de me interpelar. Provocadoramente, insinuaram que, quando me dirigia a Frelimo, usava material bélico altamente sofisticado, incluíndo armas nucleares. Quando se tratava da Renamo utiliza uma arma do tipo AKM obseleta, mas quando o assunto era MDM, me munia de uma pistola de brinquedo.
Prontamente, respondi que tudo tinha a ver com a proeminência, dimensão, responsabilidade do partido e não necessariamente simpatia ou rancor – resposta pouco convencente!
As horas corriam ao ritmo excitante da conversa. Os variados líquidos, mas com a mesma base – o álcool –, fossilizavam-se nos copos. Discutimos o comportamento de alguns órgãos de informação, falamos da CNE, elogiamos a poderosa máquina propagandística da Frelimo, exaltamos alguns analista políticos e rimo-nos de outros, e vaticinamos o futuro do MDM (para uns, será deprimente e, para a maioria, será repleto de glórias).
- Apetites partidários à parte; apesar da frustrações que isso possa vir a criar, 2ª volta seria maningue interessante – provocou “O patriota” sem, no entanto, reunir consenso, visto que os meus manos não têm dúvida sobre quem será o novo inclino da Ponta-Vermelha.
A noite levantava-se timidamente, saudava-nos com uma brisa fresca e suave. E nós não nos espantavamos com o rumo costumeiro do tempo, pelo contrário, devotavamo-nos à conversa e ao álcool. Indistintamente, elogiamos, criticamos, desejamos o bem aos partidos. Apercebemo-nos que a vida é maravilhosa quando entendemos que, mesmo em diferentes frentes, almejamos o bem-estar da pátria amada.
- Não importa quem vencerá as eleições, será o presidente de todos nós. Contanto, que vença de forma honesta.
Rimos a bom rir. Brindamos às nossas escolhas.
Quando demos por nós, a noite estava há biliões de anos-luz a contemplar as nossas façanhas e, exagerando na sua bondade, fez com que pudessemos ver a escuridão. E ainda, de contra-peso, alertava-nos a olhar para o relógio.
- Mamens, amanhã é dia de trabalho!
Assim foi o dia.